Sou autista quando...
Não sou autista porque sou metódica, chata, exigente, questionadora ou porque não gosto de comer certos alimentos ou sou mais “na minha”. O autismo vai além de um jeito de ser, é um transtorno do neurodesenvolvimento.
Sou autista quando fazem uma piada e eu não entendo o motivo de rirem, ou não vejo sentido nela.
Sou autista quando perco amizades e relacionamentos porque minha rigidez cognitiva, minhas manias e minha forma literal de pensar fazem parte de mim.
Sou autista quando pareço grosseira, mas na verdade não percebo qual seria o “jeito certo” de falar.
Me esforço para escrever de uma forma que não achem que sou grosseira, uso emojis, risadas e me esforço tanto que canso e tenho crises por performar algo que querem que eu seja, mas não sou.
Sou autista quando tenho dificuldade de sair sozinha porque os barulhos me confundem, me desorganizam e eu fico paralisada. Ou quando consigo sair, mas fico tão tensa na rua, tentando processar tudo ao mesmo tempo, que prefiro ficar em casa, que é um lugar seguro, previsível, onde eu conheço os estímulos, me sinto confortável e posso oferecer o melhor de mim.
Sou autista quando dizem que sou fria, que não tenho sentimentos, porque não expresso emoções da forma que pessoas neurotípicas.
Já perdi empregos, amigos e relacionamentos por ser quem eu sou. Tenho crises de choro, de raiva e de dor por não conseguir corresponder ao que esperam de mim.
Sou “normal demais” para parecer o estereótipo do filho autista de alguém.
E “difícil demais” quando as pessoas precisam lidar comigo de verdade.
Ser autista não é justificativa para ser “chata”. É a explicação para perdas, ruídos sociais e tantas dificuldades que carrego por simplesmente existir.
Sou autista quando pareço funcional, produtiva, comunicativa, mas chego em casa e tenho crises porque passei horas performando alguém que eu não sou.
Sou autista quando sou mãe e dona de casa, mas percebo que nada do modelo tradicional de maternidade ou de cuidado doméstico são do jeito que eu funciono. E isso me faz me cobrar além do limite, como se eu estivesse sempre falhando em um papel que nunca foi feito para mim.
Eu não quero que me tratem como criaça, não quero que achem que eu não tenho capacidade de fazer as coisas ou entendê-las, nem também quero ser a “gênia” que consegue aprender algo só de ver ou que é autodidata; eu quero que vejam também o meu lado, o meu verdadeiro lado.
Que não me coloquem sempre como a vilã, que eu também posso ser, e quem não pode?
Eu sou autista quando sonho em ter a acessibilidade que mereço, independentemente do meu nível de suporte ou de dificuldades.
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